Manoel Congo

Manoel Congo: O Grito de Liberdade que Ecoou nas Matas de Paty do Alferes

Manoel Congo inscreveu seu nome na história do Brasil como uma das mais emblemáticas lideranças da resistência negra ao regime escravocrata nas terras cafeeiras do Vale do Paraíba Fluminense. Foi no território do atual município de Paty do Alferes que se desenrolou um dos mais significativos levantes de pessoas escravizadas do Estado do Rio de Janeiro.

Na noite de 5 de novembro de 1838, por volta da meia-noite, as portas das senzalas da Fazenda Freguesia foram arrombadas. Um grupo de homens negros atravessou o pátio em corrida desesperada, dirigindo-se ao sobrado onde se encontravam suas mulheres. Ali começava a insurreição liderada por Manoel Congo e Marianna Crioula — uma jornada marcada pela luta por liberdade que, para Manoel, culminaria no martírio.

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Além de Manoel Congo e Marianna Crioula, o movimento contou com a liderança de Pedro Dias, Vicente Moçambique, Antônio Magro e Justino Benguela. Armados com facões e uma antiga garrucha, os insurgentes seguiram para a Fazenda da Maravilha, onde libertaram outros cativos e recolheram tudo o que puderam carregar.

O grupo, que já reunia cerca de 400 pessoas, embrenhou-se nas matas da Serra da Estrela, seguindo em direção à Serra da Taquara, onde acreditavam encontrar a liberdade definitiva por meio da formação de um quilombo.

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Diante da gravidade dos acontecimentos, o Capitão-Mor de Ordenanças Manoel Francisco Xavier, proprietário das fazendas e dos escravizados fugitivos, solicitou apoio às autoridades locais. O Juiz de Paz José Pinheiro comunicou o fato ao Coronel-Chefe da Legião de Valença, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, que prontamente acionou a Guarda Nacional. Em menos de 48 horas, uma tropa de cerca de 160 homens armados estava organizada para adentrar a mata e capturar os revoltosos.

Partindo da Fazenda da Maravilha, após horas de marcha, os soldados ouviram sons de machado e vozes ao longe. A tropa avançou em formação de cunha e exigiu a rendição dos aquilombados. Manoel Congo teve apenas tempo de conclamar seus companheiros ao ataque, dando início a um confronto violento que resultou na morte de diversos negros insurgentes e de dois soldados da Guarda Nacional.

Durante o embate, Marianna Crioula, conhecida como “preta de estimação” de Dona Francisca Xavier, esposa do Capitão-Mor, protagonizou um gesto extremo de resistência ao bradar: “Morrer sim, entregar nunca!”, no momento em que era derrubada e brutalmente espancada.

Após a repressão, foram presos Manoel Congo, Justino Benguela, Antônio Magro, Pedro Dias, Belarmino, Miguel Crioulo, Canuto Moçambique e Afonso Angola, além das mulheres Marianna Crioula, Rita Crioula, Lourença Crioula, Joanna Mofumbe, Josefa Angola e Emília Conga.

O homem que ousou sonhar com a liberdade foi acorrentado junto aos seus companheiros e levado a julgamento, em um processo cuja sentença estava, na prática, definida antes mesmo de se iniciar.

Entre os dias 22 e 31 de janeiro de 1839, na Praça da Concórdia, diante da Igreja Matriz da então Vila de Vassouras, realizou-se o julgamento dos réus. Manoel Congo foi condenado à pena de morte por enforcamento. Os demais homens receberam a condenação de 650 chicotadas cada, além do uso de gonzos no pescoço por três anos. As mulheres foram absolvidas, resultado de um plano que visava reduzir as perdas do proprietário, preservando a maior parte de sua força de trabalho mediante a atribuição exclusiva da liderança do levante a Manoel Congo.

No dia 4 de setembro de 1839, nove meses após a sentença, Manoel Congo foi conduzido ao Largo da Forca para cumprir a chamada “pena de morte para sempre”: o enforcamento sem direito a sepultamento. Negro forte, habilidoso, de poucas palavras e sorriso raro, morreu levando consigo o sonho de liberdade de muitos — um sonho que ainda levaria 49 anos para se tornar realidade com a abolição da escravidão no Brasil.